Estávamos frente a frente. Ela, sem se mexer, permanecia ali esperando um movimento meu. Eu não só estava paralisada, como também mantinha em meu rosto uma expressão ridícula de pavor. Ela sobreviveria a uma bomba nuclear. Eu, não.
E agora? O que fazer? Se eu não for rápida, é provável que fuja e aí então ficarei mais temerosa de deparar-me com ela em outro lugar. Certo. Tinha que tomar uma atitude e matá-la. Como? As únicas armas que tinha à mão eram um par de chinelos, um balde com água e um pano molhado. Infelizmente minha Máquina Mortífera Aspirante encontrava-se no outro lado da casa. Coragem! Coragem!
Num movimento intrépido, movida pelo asco que aquela criatura me causava, peguei o chinelo e mirei sobre ela. A desgraçada nem se mexia, ficava ali, no mesmo lugar, sob a sombra do meu chinelo, desafiando minha coragem, como que se pudesse dizer "Ah, está com medo? Vamos! Você não é a valentona? Pois me mate!".
A ousadia daquele ser repugnante transformou meu asco em raiva e eu decidi que, pela primeira vez em toda minha vida, mataria uma da espécie. Levantei cuidadosamente o chinelo, mirei mais uma vez e... NÃO! Ela correu em minha direção velozmente, tentando subir em meu pé descalço.
Num grito desesperado, saí correndo. Entrei na sala ao lado e fechei a porta. Pálida e trêmula, senti-me a maior das covardes! Uma pateta! Queria correr e pegar o aspirador de pó para ao menos provar a ela minha superioridade humana, mas me faltava coragem até mesmo para abrir a porta... Lamentável!
Esperei na sala uns dez minutos. Mais calma, abri a porta, olhei à volta certificando-me de que ela não estava mais ali e subi correndo as escadas para o meu quarto.
Baratas sobem escadas?
Há 5 anos