28.10.08

Loser!

Estávamos frente a frente. Ela, sem se mexer, permanecia ali esperando um movimento meu. Eu não só estava paralisada, como também mantinha em meu rosto uma expressão ridícula de pavor. Ela sobreviveria a uma bomba nuclear. Eu, não.

E agora? O que fazer? Se eu não for rápida, é provável que fuja e aí então ficarei mais temerosa de deparar-me com ela em outro lugar. Certo. Tinha que tomar uma atitude e matá-la. Como? As únicas armas que tinha à mão eram um par de chinelos, um balde com água e um pano molhado. Infelizmente minha Máquina Mortífera Aspirante encontrava-se no outro lado da casa. Coragem! Coragem!

Num movimento intrépido, movida pelo asco que aquela criatura me causava, peguei o chinelo e mirei sobre ela. A desgraçada nem se mexia, ficava ali, no mesmo lugar, sob a sombra do meu chinelo, desafiando minha coragem, como que se pudesse dizer "Ah, está com medo? Vamos! Você não é a valentona? Pois me mate!".

A ousadia daquele ser repugnante transformou meu asco em raiva e eu decidi que, pela primeira vez em toda minha vida, mataria uma da espécie. Levantei cuidadosamente o chinelo, mirei mais uma vez e... NÃO! Ela correu em minha direção velozmente, tentando subir em meu pé descalço.

Num grito desesperado, saí correndo. Entrei na sala ao lado e fechei a porta. Pálida e trêmula, senti-me a maior das covardes! Uma pateta! Queria correr e pegar o aspirador de pó para ao menos provar a ela minha superioridade humana, mas me faltava coragem até mesmo para abrir a porta... Lamentável!

Esperei na sala uns dez minutos. Mais calma, abri a porta, olhei à volta certificando-me de que ela não estava mais ali e subi correndo as escadas para o meu quarto.

Baratas sobem escadas?

21.10.08

It´s Only Rock And Roll

E lá estavam eles. Os mesmos caras: músicos, roqueiros, cabeludos, com seus jeans surrados, tocando o bom e velho rock and roll.

Num momento de nostalgia, a menininha de cabelos cacheados começou a correr novamente pelo corredor, para lá e para cá.
Muito curiosa, mexia em absolutamente tudo que lhe parecia atraente. Quando ninguém estava vendo, sempre dava um jeito de fuçar nas bags e cases alheios, apertar e girar os botõezinhos da mesa, além de desafinar todo e qualquer instrumento de corda que visse pela frente. Olhava cuidadosamente para o chão, tentando encontrar palhetas perdidas e, quando achava, pegava rapidamente e guardava no bolso. Colecionava-as escondida, com medo de que descobrissem e as devolvessem para os respectivos donos.
Adorava ficar girando em volta da clave de sol desenhada no chão e achava demais aquela boca grandona com a língua para fora colada na parede.
Ouvia atenta a todas aquelas músicas que, à época, não faziam muito sentido, mas que ela fazia questão de decorar ao seu jeito para ficar cantarolando pelos cantos. Adorava pegar as baquetas e judiar dos pratos, deixando seu pai louco da vida. Pai esse que lhe deu um microfone dourado, que ela tanto insistiu em ganhar. Esperava o ensaio acabar e lá ia ela com seu microfone dourado imitar o trejeitos que havia aprendido observando o vocalista que acara de sair.
Era a queridinha da turma e estava em todas, sempre passando de um colo para o outro, mexendo num instrumento aqui e outro ali...

Da cabine, enquanto assistia ao ensaio e sorria para eles, percebi que, na verdade, não sentia saudades da infância. Sentia apenas uma imensa felicidade por saber que a música mantém viva a criança que há em mim.

20.10.08

Saudade

sau.da.de
sf (lat solitate) 1 Recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes, ou de coisas passadas. 2 Nostalgia.

16.10.08

(I Don´t Know What´s Going) On

I don't know what's going on
I am so up close to you
I don't know what's going on
I don't know what's going on
I am so confused by you
I don't know what's going on
No don't say anymore
To me at all
No don't say more
To me at all
I am so in love with you...
with you... with you...
I am so in love with you...
With you... with you...
I don't know what's going on
I am so in deep with you
I don't know what's going on
I don't know what's going on
I am so disturbed by you
No don't say anymore
To me at all
No don't say more
To me at all
I am so in love with...
You!

15.10.08

Nem Falado E Tampouco Escrito

Tendo em vista que a merda da transmissão de pensamento ainda não se tocou que é hora de parar decidi que hoje, em protesto, não vou postar coisíssima nenhuma! Além disso, não estou nada afim de ser acusada injustamente de plágio pelo Sr. Autor que me fez o favor de escrever uma frase quase idêntica à que escrevi ontem.

14.10.08

Lua Cheia

Na laje, à meia-noite, eu e ela:

- Mamãe, queria pegar a lua, mas não consigo (Esticando o bracinho). Por que não consigo?
- Porque a lua fica muito, muito distante daqui, filha.
- Lá no altão?
- É, lá no altão.
- Ah, então eu não consigo pegar porque sou pequeninha, mas você é grande, você consegue. Pega ela pra mim mamãe? (Longo abraço)

Num dia em que eu não sabia direito nem quem era, ela me fez sentir ser a pessoa mais importante do mundo. A imensidão do céu pareceu pouco comparada à felicidade que senti no simples fato de ser mãe.

12.10.08

Machado

Dói. Então deixo que ele defina por mim:

"Descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência."

Alguma Dúvida?

Escolha ir. Escolha ficar. Escolha esconder-se. Escolha brilhar. Escolha satélite. Escolha anular-se. Escolha razão. Escolha emoção. Escolha matéria. Escolha estrada. Escolha largo. Escolha estreito. Escolha cair. Escolha o fundo. Escolha além. Escolha planejar. Escolha hoje. Escolha do amanhã. Escolha belo. Escolha infinito. Escolha perigo. Escolha certeza. Escolha cômodo. Escolha de sempre. Escolha alguém. Escolha ele. Escolha ela. Escolha íntima. Escolha céu. Escolha inferno. Escolha ateu. Escolha inverno. Escolha verão. Escolha morno. Escolha sair. Escolha não voltar. Escolha sem volta. Escolha seco. Escolha suave. Escolha dormir. Escolha dor. Escolha remédio. Escolha anestesia. Escolha novo. Escolha medo. Escolha natural. Escolha colorido. Escolha branco. Escolha nulo. Escolha minutos. Escolha anos. Escolha sem relógio. Escolha sonhar. Escolha sonho. Escolha difícil. Escolha voz. Escolha violão. Escolha metal. Escolha míope. Escolha óculos. Escolha de olhos fechados. Escolha casar. Escolha bairro. Escolha o mundo. Escolha guiar. Escolha carona. Escolha a cavalo. Escolha esquerda. Escolha direita. Escolha demais...

11.10.08

E é assim

Algumas coisas acontecem e a gente não entende por quê... E elas podem ser avassaladoras como um furacão ou sutis como a brisa de verão. E a gente não entende. Talvez porque certas coisas simplesmente não devam ser compreendidas, devam ser lições silenciosas... Que modificam a essência, que transcendem o lógico, que calam fundo na alma.
End of story.

8.10.08

No Description

Estive relendo textos que escrevi há algum tempo. Cheguei à conclusão de que já escrevi muito mais sobre mim mesma do que agora. E, por algum motivo, essa constatação ficou me perturbando durante uma semana inteira.

Por que parece impossível formular uma só frase que realmente expresse o que quero? De repente um dicionário parece pouco e nenhuma palavra faz sentido.

É curioso, pois não me lembro de uma época, desde que me conheço alfabetizada, na qual não tivesse total intimidade com um diário ou algo do gênero. Sempre usei meus textos como forma de auto-conhecimento. Escrevia, lia, relia, e logo toda aquela confusão de idéias parecia fazer algum sentido.

Me senti traída! Como as palavras, que sempre foram minhas maiores cúmplices em absolutamente tudo, me deixaram assim, sem mais nem menos? Logo elas que sempre estavam lá quando ninguém era capaz de me entender...

Isso me deixou incorformada, e então passei três dias obstinada a escrever um texto que descrevesse exatamente o que estava sentindo. Em vão! Não consegui passar do primeiro parágrafo.

Por fim, decidi admitir e me conformar que, nesse momento, simplesmente não estou em condições de construir sequer uma frase sobre seja lá o que esteja sentindo.

O que me contenta, de alguma forma, é saber que as palavras estão bem aqui, dentro da minha cabeça, ainda que desorganizadas. E que, no fundo, no fundo, a maior traidora sou eu, por trocar o tempo dos verbos, por confundir substantivos e adjetivos, por deixar que monossílabas sejam dois e dissílabas sejam três.