8.5.09

Confesso


Sou fascinada por igrejas, especialmente aquelas em que o silêncio e o ambiente meio medieval predominam. Não que eu seja religiosa, aliás, estou muito longe disso, mas esses lugares me causam uma paz imensa, e quando eu entro é como se minha visão clareasse e minha percepção sobre o que é maravilhoso ficasse extremamente aguçada.

Gosto de observar todos os detalhes, desde as frases que não entendo até a madeira trabalhada da porta. Gosto de sentar e ouvir o canto melancólico dos monges. Gosto de olhar para o confessionário e dar-me conta de que nunca me confessei de absolutamente nada.

Visitar a igreja, para mim, é algo muito nostálgico, é poder viver a História além do que se pode ler ou imaginar. É poder viver um pouquinho uma realidade completamente diferente de hoje em dia.

Mas este texto não deve ser motivo de orgulho para nenhum dos meus parentes religiosos. Meu interesse é estritamente cultural, o gosto por igrejas não passa de um gosto pagão.

4.5.09

Rogério de Quê?

Aos seis anos de idade morava num condomínio em Salvador. No mesmo bloco vivia um homem, com a aparência muito estranha, que não falava nada e sempre que se deparava comigo, me encarava por um longo tempo. Era o Rogério. O Rogério virou como que uma lenda no condomínio, todas as crianças o temiam, como se ele fosse o Homem do Saco ou algo do gênero. Eu, sentia um medo terrível dele e todas as vezes que alguém dizia que ele estava por perto, saía correndo e me escondia atrás do prédio.

Meus pais costumavam me tranquilizar quanto à sua nocividade, explicando que ele era autista e que por isso era um pouco diferente da maioria das pessoas. Mas na minha cabecinha de setenta e dois meses era um monstro ou no mínimo um homem muito mal que não hesitaria em me pegar e nunca mais me trazer de volta.

Eis que tive a infelicidade de quebrar a perna. Fiquei engessada do pé até a virilha por três meses e andava somente usando muletas. Mesmo assim, como toda criança, queria estar junto dos meus amiguinhos e me esforçava para brincar mesmo naquele estado. Um belo dia, enquanto conversava com algumas crianças na escada do prédio, uma menina apareceu, pálida, dizendo que o Rogério estava indo em direção à escada. Até hoje tenho a impressão de que meu coração parou naquele momento. Todas as crianças subiram e se esconderam e eu fiquei lá, sozinha, com a perna engessada, sem poder me mover, aterrorizada. Queria gritar, mas minha voz não saía. Ele apareceu e ficou de frente para mim durante uns cinco minutos, me olhando fixamente e depois disso, disse apenas "água" e saiu correndo.

Daquele dia em diante, quando via as crianças correndo dele, dava risada. Fui forçada a enfrentar meu medo e fiquei agradecida por isso depois.

A vida sempre manda alguns "Rogérios" para serem encarados por todo mundo. Cada um lida com eles como quer, uns fogem, uns se escondem e outros nem saem de casa.
Eu sei que, cedo ou tarde, acabo sendo forçada a enfrentá-los. E prefiro assim. Fico quietinha, esperando para ver o que vai acontecer. Se ele pedir água, ótimo, se me enfiar num saco e levar embora, prefiro pagar para ver.